19 de outubro de 2015

AH SE TU SOUBESSES...

REJEITADO POR DOIS GRANDES INTÉRPRETES, “CARINHOSO” FOI LANÇADO POR ORLANDO SILVA E TORNOU-SE A MÚSICA MAIS ADMIRADA PELOS BRASILEIROS NO SÉCULO XX.

O primeiro a ser procurado para gravar “Carinhoso” foi Francisco Alves, o “Rei da Voz” (18/8/1898-27/9/1952), na época, o cantor mais famoso do país, que não deu muita importância à música que lhe foi apresentada. Outro ótimo cantor, bem menos badalado, que atendia por Carlos Galhardo, o “Cantor que dispensa adjetivos” (24/4/1913-25/7/1985), achou melhor não se arriscar com aquele choro, antes só instrumental, criado por um flautista e compositor de respeito chamado Alfredo da Rocha Vianna, o Pixinguinha (23/4/1897-17/2/1973) -, e que acabara de receber inspirados versos compostos em tempo recorde por João de Barro, o Braguinha (29/3/1907-24/12/2006), um excelente autor carnavalesco, dono de alguns dos mais expressivos sucessos: “As pastorinhas”, “Gato na tuba”, “Chiquita bacana”, “Touradas de Madrid” , “Yés, nós temos bananas”, “ Pirata da Perna de Pau” e “Balancê”.

       
 Pixinguinha - Foto: álbum RCA Victor 1998.                 Braguinha (João de Barro). Foto: Sônia Almeida/Doc JB.1992.

O ano era 1937 e vivia-se a efervescente era do rádio, período agitado com a recente inauguração da importante rádio Nacional (1936), o lançamento do microfone elétrico e a consagração de grandes ídolos populares como Vicente Celestino, Chico Alves, Sílvio Caldas, Carmem e Aurora Miranda, Noel Rosa, Lamartine Babo, Almirante, Mário Reis, Ary Barroso, Ernesto Nazareth, Zezé Fonseca, Custódio Mesquita, Aracy de Almeida, Benedito Lacerda, Pixinguinha, Assis Valente, Radamés Gnattali, Mário Lago, Ataulfo Alves, Orquestra Tabajara, Alvarenga e Ranchinho, uma verdadeira seleção de astros e estrelas que brilhou intensamente no rádio, teatro, cinema, shows e em grandes espetáculos , mais tarde levados para a televisão .

Orlando Silva - Foto: álbum RCA Victor 1998
Um nome que despontava artisticamente e que viria a transformar-se no primeiro grande ídolo de massas da MPB era o jovem (22 anos) mulato Orlando Silva, logo definido pelo apresentador Oduvaldo Cozzi como o “Cantor das multidões” - dono de voz privilegiada , um jeito diferenciado de cantar, com interpretação inconfundível-, aceitou, na hora, gravar o recentemente letrado “Carinhoso”, cuja partitura ficara guardada durante muitos anos na pasta do mestre Pixinguinha, porque “só tinha duas partes e a moda vigente era com três”, segundo depoimento do próprio autor da melodia, que acabou dividindo a parceria de sua criação com Braguinha, que fez a letra.

Interessante na história , é que, após “Carinhoso” ter ficado na prateleira por muito tempo e ter sido rejeitado por dois respeitados cantores , a gravadora RCA lançou a música em maio de 37, na voz de um outro astro que começava a se destacar e chamava atenção pelo seu talento e dicção perfeita. No lado B do disco de 78 rpm, foi colocada a composição “Rosa” (“Tu és divina e graciosa”...), também de Pixinguinha e a preferida de dona Balbina -, mãe de Orlando Silva, que se transformaria igualmente em enorme sucesso do repertório do artista considerado o mais perfeito intérprete da música popular brasileira, o primeiro a acreditar e gravar a melodia apontada “A música do século 20”, em votação aberta na internet, “apenas” 63 anos depois. E “Carinhoso” tornou-se uma das composições mais gravadas, nas mais diversas vozes , arranjos e versões , vindo a ser consagrada e admirada por todos , que a cantam em coro e sem ensaio.

Essas lembranças sobre Orlando Silva (1915/1978) e “Carinhoso” (1937) vêm à tona pelo fato de o nosso inesquecível intérprete estar sendo celebrado pela passagem dos cem anos de seu nascimento, ocorrido em 3 de outubro de 2015, motivo de homenagens em programas especiais, lançamento de recital, exposição e sarau, reedição de livro biográfico, show-homenagem, disco-comemorativo e documentário sobre a vida do grande astro que marcou época na MPB e faleceu aos 62 anos, no Rio de Janeiro.

Para matar saudade e para os mais jovens aprenderem a admirar, vale a pena ouvir aqui a gravação original de “Carinhoso” com Orlando Silva acompanhado pelo Conjunto Regional RCA Victor.




Colaboração de Hamilton Gangana, sócio-fundador do Clube do Choro de BH. 


Fontes: Folha de S.Paulo, O Globo, Caixa Orlando Silva, O Cantor das Multidões (3 CDs, 66 músicas) lançado em 1998 pela RCA/BMG com apresentação do jornalista e escritor Ruy Castro, em encarte sob o título "Caprichos do destino" .