Nesta sexta (08/04), a partir das 20 horas, o trio formado por Túlio Araújo no pandeiro, Marcelo Jiran no piano e Bruno Teixeira na flauta garantem a roda de Choro no Padú.
Os instrumentistas transitam por diferentes gêneros musicais e o Choro ocupa um lugar especial em suas carreiras, em um repertório de primeira grandeza, inclusive autoral. Não perca e convide os amigos.
O terceiro episódio do "Abre a Roda Mulheres nas Redes" está no ar com composição autoral da clarinetista Thamiris Cunha. O vídeo da música "Tio Taco" vem acompanhado de um texto, também assinado por ela, contando as memórias que influenciaram nessa composição.
O Abre a Roda nas Redes é um projeto do Abre a Roda Mulheres no Choro. Com ele, o coletivo propõe nos trazer um pouco do universo da música e do Choro através de textos, vídeos e lives. Os conteúdos são elaborados através de muitas pesquisas e da vivência de mulheres musicistas com vontade de trocar experiências e exercer o protagonismo feminino nessa rede virtual.
TIO TACO, UMA MÚSICA PARA CELEBRAR
A ALEGRIA E A GRATIDÃO
Por: Thamiris Cunha
Thamiris Cunha de Oliveira, natural de Contagem, a terra das abóboras, é filha de músicos e iniciou os estudos ainda pequenina na banda de sua cidade. Seu pai, José Eustáquio de Oliveira, ensina as primeiras notas e o universo musical a encanta. Apaixonada pelo som e pela arte que invadem a vida da jovem menina, Thamiris, tem como companheira diária a clarineta. Influenciada por sua mãe, psicóloga e musicista, começa a lecionar aos 18 anos como professora de música e logo decide por seguir na carreira acadêmica.
Aos 21 anos, ingressa na Universidade Estadual de Minas Gerais a qual a apresenta ao cenário do CHORO. Desde então, permanece nos caminhos sonoros e envolventes do Choro e descobre que tal gênero tem ligação direta com sua essência musical. Alegria, espontaneidade e diversão: são palavras que se confundem ao descrever Thamiris e o CHORO.
Tio Taco pra cá, tio Taco pra lá. Essas eram as palavras que soavam constantemente em sua casa durante as festas familiares. Então, quem seria esse TIO TACO que fazia todos rirem e que gostava de UPA NEGUINHO e CHARLIE PARKER? Pois bem, TIO TACO era músico, maestro, saxofonista, pai e tio e foi quem, incessantemente, ajudou a construir toda a trajetória musical de Thamiris. Como forma de retribuir todo o amor e ensinamentos ao longo de 29 anos, Thamiris compõe a música TIO TACO, um maxixe dançante e alegre que representa carinho, união e felicidade, atributos adquiridos com o contato musical.
Se você gosta de Choro e também de sorrir e dançar, não deixem de ouvir essa composição envolvente feita por Thamiris Cunha de Oliveira. Tio Taco, uma música para celebrar a alegria e gratidão.
"Flor amorosa" é o título do segundo episódio do projeto Abre a Roda nas Redes. O texto assinado pela flautista Alice Valle nos conta sobre questões curiosas acerca desta composição de Joaquim Callado com letra de Catulo da Paixão Cearense.
Através deste projeto, o coletivo Abre a Roda Mulheres no Choro propõe nos trazer um pouco do universo da música e do Choro através de textos, vídeos e lives.
Todos os conteúdos são elaborados através de muita pesquisa e da vivência de mulheres musicistas com vontade de trocar experiências e exercer o protagonismo feminino nessa rede virtual. E o resultado tem sido maravilhoso.
"Muitas vezes, por causa de um detalhe ou acontecimento inesperado, a história que deveria ser escrita é transmitida de outra forma. É engraçado pensar no que poderia ter sido diferente e influenciado gerações de outra maneira. Um exemplo disso, no cenário musical, é a música Flor Amorosa, de Joaquim Callado."
"Flor Amorosa" - Choro de Joaquim Callado e letra de Catulo da Paixão Cearense
Por Abre a Roda Mulheres no Choro com a participação de Paulo Prot na gaita.
A versão dos fatos que nos é contada hoje se apresenta com um ou alguns pontos de vista que prevaleceram sobre o emaranhado de realidades que compõem a história. Muitas vezes, por causa de um detalhe ou acontecimento inesperado, a história que deveria ser escrita é transmitida de outra forma. É engraçado pensar no que poderia ter sido diferente e influenciado gerações de outra maneira. Um exemplo disso, no cenário musical, é a música Flor Amorosa, de Joaquim Callado. Essa polca que é uma das músicas mais conhecidas do choro, hoje é umas das referências do gênero e é tocada até em outros países.
Em uma breve pesquisa por sua história e de seu compositor, me deparei com informações limitadas, que se mostravam muito rasas e sem comprovação de veracidade. É fato que Callado foi um músico e compositor importantíssimo, porém ainda existem muitas lacunas em seus dados biográficos. Em um artigo, Marcelo Verzoni (2016) aponta que o fato do compositor ter vivido apenas 31 anos influencia, até certo ponto, na precariedade do material disponível.
Em relação à música Flor Amorosa, sua peça mais popular, observamos várias questões curiosas. Verzoni (2016) explica que ela foi publicada onze dias após sua morte em 1880 e anos depois recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense. Ela é referida por alguns autores como polca-canção, porém Callado imaginou-a simplesmente como polca instrumental. O professor Siqueira levanta outras questões sobre ela: o observador quer saber, por exemplo, em que condições foi publicada essa peça deixada inédita, talvez até com outro título, bem como se houve ou não algum abuso no momento da publicação por interferência de elementos saudosistas ou interessados na repercussão popular do acontecimento.
Essas cogitações baseiam-se em dois fatos importantes: primeiro, ter sido a obra impressa logo depois da morte do artista; segundo, o encontro de uma polca, no caderno de flauta do ex-professor do Instituto Nacional de Música, Pedro de Assis, com a mesma música e nome diferente, copiada em 1893. Esse conhecido mestre foi também professor de um neto de Callado, de nome João Damasceno.
[...] A polca A Flor amorosa, publicada simultaneamente por duas editoras, trazia uma ‘terceira parte’ com um trecho completo retirado da Marcha Fúnebre, de Chopin. A incerteza gera nova exigência crítica: teria o grande flautista sido inspirado por uma força superior em forma de premonição? [...] A crítica desconhece a responsabilidade do autor da música pois estava sepultado quando a edição foi lançada no mercado.
É preciso reconhecer ainda que, naquele tempo, era muito comum uma polca somente com duas partes: a terceira era improvisada no momento, quando não, deixada para uma exibição da harmonia expressiva dos tocadores de violões. [...] Já na segunda metade do século passado os autores nacionais começaram a escrever polcas com duas seções melódicas e uma de interesse modulatório, não apenas no tom vizinho senão também com aglutinação de passagens cromáticas, evanescentes das resoluções excepcionais. [...] (Siqueira, 1969, p. 124-125)
A partir desse trecho, Verzoni (2016) entende que a problematização acerca da terceira parte da música é relevante. Seguindo a ideia de que todas as outras polcas de Callado tinham três partes, sugere a possibilidade do compositor ao falecer, ter deixado a peça incompleta, se considerarmos que a terceira parte tenha realmente sido acrescentada por outra pessoa.
A partir disso, reflito sobre a importância dos historiadores nessa eterna busca por outras "verdades" e pontos de vista na história para vários fins. Desde fazer valer e dar voz às realidades daqueles excluídos das páginas dos livros até seguir escrevendo nossa história com mais consciência. Se nós cavarmos, encontramos inúmeros exemplos de mulheres e homens que foram vidas subversivas em atos, palavras e música. Eles não serão esquecidos.
O Abre a Roda Mulheres no Choro acaba de lançar seu novo projeto: o Abre a Roda nas Redes. Com ele, o coletivo propõe nos trazer um pouco do universo da música e do Choro através de textos, vídeos e lives. Serão conteúdos elaborados através de muitas pesquisas e da vivência de mulheres musicistas com vontade de trocar experiências e exercer o protagonismo feminino nessa rede virtual.
No primeiro episódio do Abre a Roda nas Redes, a bailarina, musicista e artista cênica, Bárbara Veronez nos conta sobre o Maxixe, essa dança jubilosa que faz o corpo escorregar e se entregar.
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FALANDO DE MAXIXE
Por: Bárbara Veronez
"Dizem, e acredito, que nada se perde. Tudo se transforma. E a história do Maxixe é um exemplo disso. Ela percorre um arco de acontecimentos que vai dos batuques de Lundu do Brasil Império a Michel Teló e o Vanerão Gaúcho".
Vou contar pouco dessa dança buliçosa, já que o corpo se encarrega e entrega. Você vai sentir movimentos involuntários em seus quadris ao som dos choros maxixados de Chiquinha Gonzaga e através de registros de casais insinuando saracoteios pelos salões e clubes carnavalescos da Belle Époque brasileira.
Para começar, é preciso lembrar de alguns antecedentes, ou melhor, ingredientes do Maxixe. Um deles, o Lundu, era uma dança africana introduzida por mulheres e homens negros de Angola, trazidos ao Brasil como escravos. No século XIX já era uma dança brasileira, ligada mais ao meio rural e com algumas modalidades diferentes, dentre elas, a dança de roda onde todos participavam cantando, dançando e batendo palmas. Era um ritmo jocoso e sensual e com o tempo passou para a forma de música urbana adentrando de forma mais comedida os salões de dança. O lundu-canção era apreciado nos circos, casas de chope e salões do Império. Foi o primeiro gênero musical gravado no Brasil e seu legado principal foi o Maxixe, ritmo sincopado, uma outra forma musical híbrida e urbana que deve também suas origens a Polca e a Habanera.
"O maxixe" - Fotografia de Édouard Stebbing - 1910
Especula-se que o ritmo do Maxixe também teve influência de uma dança e canto do sul de Moçambique e que de lá derivaria seu nome por existir uma cidade moçambicana chamada, justamente, Maxixe. Até hoje, o padrão rítmico e os movimentos ondulatórios do tronco e quadris da Marrabenta (dança moçambicana) guarda semelhanças com os padrões do Maxixe.
Chiquinha Gonzaga, filha de um militar do Império e uma mulher negra, foi educada para ser uma dama da corte, frequentando e conhecendo de perto a música clássica e as danças europeias de salão. No entanto, frequentava as escondidas os clubes de música do Rio de Janeiro e os terreiros de Lundu. De forma muito original, mesclou ritmos das principais músicas de salão e entretenimento da época como a Polca, Mazurcas, Valsas e Quadrilhas com os sons das ruas do Rio.
Além de ter sido a dança da moda até o início do século XX e ter influenciado o Samba, o Maxixe absorveu as tendências do Tango que despontava na Argentina e Uruguai. Por esse motivo, mas não só por isso, o apelidaram de “tango brasileiro”. Por ser uma dança de caráter sensual, foi alvo de preconceitos por parte da sociedade que a julgava indecente e contrária aos bons costumes. Foi considerada escandalosa e excomungada pela Igreja, perseguida pela polícia e educadores. Então, para que pudessem ser tocadas em casa de família, as partituras de Maxixe eram chamadas pelo nome de "Tango Brasileiro".
O preconceito fez com que a dança fosse excluída do repertório das danças sociais de salão e se popularizasse através dos clubes carnavalescos e do teatro de revista ou teatro musicado, operetas de caráter satírico para as quais Chiquinha, dentre outros músicos, compunham a trilha. Os grupos de choro e bandas de música foram, sem dúvida, grandes criadores e divulgadores do Maxixe.
O Maxixe influenciou os primeiros compositores de Samba que até hoje preserva muitas de suas estruturas rítmicas e está presente também em uma variedade de passos do samba de gafieira, samba de breque e samba-choro. Até o surgimento do Samba, o Maxixe foi o gênero dançante mais importante do Rio de Janeiro.
A Lambada também deve algumas contribuições de estilo ao Maxixe e até hoje no Pará, na Ilha de Marajó se dança uma variação mais comportada do Lundu, o Lundu Marajoara, semelhante em boa medida ao modo de dançar o Carimbó (esse de origem indígena), porém todos os estilos parecem se comunicar! E até o Frevo de Rua pernambucano teve o Maxixe como uma das principais influências!
E onde entra Michel Teló nessa história toda... Em 1995, o próprio, junto ao Grupo Tradição popularizou a Vanera a nível nacional. O Maxixe ressurgiu com força total nas periferias de Porto Alegre e nos bailes tradicionais gaúchos onde predominava o Vanerão. Começaram então a rebolar e adaptar o seu ritmo ao som da sanfona. As pessoas achavam a dança engraçada e a imitavam, surgindo assim o modo gaúcho de dançar o Maxixe.
Vai que essa moda pega mais uma vez. Rodas de choros, domingueiras de Dança de Salão, Bailes de Gafieira. Depois de tanto tempo em isolamento social, dançar junto será um dos melhores temperos para encurtar as distâncias! Amaríamos ver uma cidade inteira a dançar e, sem dúvidas, nos sentiríamos muito honradas em embalar cada passo!
Numa parceria com o site do Clube do Choro de BH os próximos conteúdos do Abre a Roda nas Redes também serão disponibilizados por aqui. Fiquem atentos e acompanhem.