4 de dezembro de 2018

"MEU PRIMEIRO ENCONTRO COM DINO SETE CORDAS"

No ano do centenário do grande mestre das 7 cordas, o pesquisador Angelo Zaniol presta sua homenagem a Horondino José da Silva, através de crônica escrita em 2007.

Dino 7 Cordas. Foto: acervo pessoal Angelo Zaniol
Neste ano, quando celebramos o centenário do violonista Horindino José da Silva, mais conhecido como Dino Sete Cordas, diversas manifestações programadas ou de improviso amoroso, como esta que publicamos hoje, dão conta da genialidade humana e artística do grande mestre que nos deixou em maio de 2006.
Mas antes de partir para o palco superior, aos 88 anos, Dino deixou marcas dedilhadas em muitos discípulos e amigos que não poupam admiração, quando o assunto é prestar sua reverência àquele que será sempre um grande mestre.

Recentemente, o italiano Angel Zaniol (cujos atributos somados como professor, historiador, organólogo, compositor, arranjador, instrumentista, luthier e pesquisador lhe conferem admirável conhecimento e declarado apreço pela obra dos grandes compositores brasileiros) nos encaminhou, autorizando a publicação da história que hoje disponibilizamos para os leitores. Na crônica escrita em 2007, na cidade de Castelfranco Veneto (Itália), Zaniol descreve a experiência do seu primeiro encontro, em 1995, com o mestre das sete cordas.


MEU PRIMEIRO ENCONTRO COM DINO SETE CORDAS
(por: Angelo Zaniol - Junho de 2007)


Um dos maiores representantes da MPB que encontrei, foi seguramente Dino Sete Cordas. Pude conhecer pessoalmente este sumo Mestre durante minha estada no Rio de Janeiro em 1995. Foi meu caríssimo amigo Milton Varela Vilas, um advogado carioca infelizmente recém-falecido prematuramente, quem me apresentou ao Mestre, com quem ele tinha uma grande intimidade, pedindo-lhe para dar-me algumas aulas sobre a arte de compor aquelas deliciosas baixarias que são uma das melhores atrações da MPB da Época de Ouro. Tratava-se de um assunto que eu anelava desde há muito tempo esclarecer. 

O velho violonista me disse com tocante candura que ele não sabia nada dessa “arte”; ele só sabia improvisar de instinto as baixarias de qualquer melodia, mesmo se ele a ouvia pela primeira vez. Para convencer-me, ele pegou um cavaquinho (instrumento que então eu tocava bastante bem) e, colocando-o em minhas mãos, me convidou a tocar para ele um dos meus choros (claramente o Milton o tinha informado que eu compunha músicas “brasileiras”). Toquei Não me Sai da Cabeça!, um choro meu dedicado a Pixinguinha [v. https://www.youtube.com/watch?v=yql2dTIIxEE ], harmonicamente bastante complexo. O Dino ouviu em silêncio do começo ao fim uma só vez , e disse que minha peça era agradável e sobretudo original: “Nunca antes ouvi um choro semelhante ao seu, e veja que eu toco choros há uns sessenta anos”, exclamou ele. Logo depois começou a tocá-lo comigo, improvisando com estupefaciente naturalidade no seu violão de sete cordas as baixarias mais encantadoras que a gente pudesse ouvir: contracantos de uma beleza incomparável que tornavam minha musiquinha uma coisa completamente diversa, uma obra-prima, e isso somente graças à contribuição do Dino! O Mestre tocou o meu choro quatro ou cinco vezes de enfiada e cada vez com baixarias sempre novas e totalmente diversas. Uma experiência exaltante e inesquecível para mim! 

Não me sai da cabeça! Composição de Angelo Zaniol

Eu quis aproveitar essa ocasião única para perguntar ao Dino se aqueles prodigiosos duetos que ele gravou em 1991 com Raphael Rabello (CD CAJU MUSIC 849521-2) foram preparados em todos os detalhes e ensaiados antes de gravá-los. O Mestre me assegurou com muito calor que os duetos em questão foram praticamente improvisados no último momento perante os microfones e gravados uma só vez. Aliás, o Raphael, gênio desregrado como nenhum outro, não queria saber de ensaios nem de repetições! Pessoalmente acho que esses duetos são a melhor prova do que a genialidade em estado de graça é capaz de produzir para nossa felicidade. Agora os dois gigantes das cordas brasileiras estão ambos no céu dos músicos em ótima companhia e decerto o bom Deus ficará mesmo encantado em ouvi-los improvisar um sem fim de choros, valsas, jongos, etc., com músicos do quilate de Pernambuco, Garoto, Dilermando, Luperce, Jacob, Waldir e tantos outros. No meu arranjo para trio (cavaquinho, flauta e violão) de Sons de Carrilhões [ v. https://www.youtube.com/watch?v=L7sa_JY-b9s ] há uma minúscula homenagem ao grande Dino: no compasso 12 a pequena escala cromática do baixo acha-se idêntica no disco supracitado, uma das suas pérolas que eu quis “roubar” e engastar no meu arranjo. 

“Sons de carrilhões”, Maxixe-Choro, autoria de João Pernambuco.
Arranjo de Angelo Zaniol per trio cavaquinho, flauto e chitarra.

Há alguns meses, na esteira dessas doces recordações, eu quis saber algo mais sobre as circunstâncias do falecimento do Dino, ocorrido no ano passado, precisamente a 27 de maio de 2006. Com grande surpresa minha eu li num site a seguinte notícia: «O violonista Dino Sete Cordas, ex integrante do Época de Ouro, morreu nesta madrugada, em consequência de uma pneumonia. Ele tinha 88 anos e estava internado no Hospital do Andaraí, na zona norte do Rio. […]. Como Dino estava sem dinheiro para pagar um plano de saúde - o Hospital do Andaraí é da rede pública - músicos como Beth Carvalho, Paulinho da Viola e colegas do Época de Ouro haviam se unido para organizar um show para arrecadar fundos e ajudá-lo. Apesar da morte de Sete Cordas, a apresentação, que tem o apoio da Petrobras, será realizada terça-feira, às 19h30, no Teatro Carlos Gomes. Os organizadores decidiram mantê-la como forma de homenagear o músico. A arrecadação será destinada a sua família.» [os caracteres em “negritos” são meus]. 

Estas palavras logo encheram minha alma de uma tristeza indizível e meus olhos de lágrimas! Eu não podia acreditar que o grande Dino, a saber uma das maiores glórias da cultura brasileira, após uma longa vida toda dedicada à música do seu país, com êxitos da mais alta qualidade e nobreza, tinha acabado a sua existência terrena sem dinheiro, para si mesmo e para a sua família, e ainda pior, num Hospital da rede pública! 

Seja como for, a profunda dor que me deu essa notícia, despertou em mim o desejo de tributar ao menos uma derradeira homenagem pessoal ao Dino, o músico celestial que um dia dignou-se tocar comigo, simples amador estrangeiro de meia-tigela, um dos meus choros. Lembrei-me então que João Pernambuco (outro músico brasileiro de primeira água ignominiosamente maltratado pelos seus contemporâneos; o Dino o admirava muitíssimo, ou melhor, o venerava) nos deixou, além do Sentindo, um segundo lindíssimo tango intitulado Lágrimas, que ele gravou em 1926 junto com o jovem Rogério Guimarães (violonista de enorme talento, hoje porém quase esquecido: felizmente no IMS podemos ouvir várias estupendas gravações dele). Deste tango, foi publicada em 1978 pela Ricordi Brasileira uma partitura com a revisão de Henrique Pinto, revisão que não é desprezível mas, a meu aviso, não faz justiça à esta página. 

Angelo Zaniol, no jardim de sua casa,
em 1994, tocando o cavaquinho que
fabricou sem ter ainda visto  um
 instrumento original. Foi com este instrumento
 que compôs  muitas das "peças brasileiras".
Portanto, decidi compor em homenagem ao Dino um arranjo especial do tango Lágrimas, quero dizer inspirado à maneira inconfundível do Dino de tocar contracantos, às vezes de tipo bachiano. Escolhi uma estrutura com quatro vozes reais, que cantam todas segundo as regras do contraponto dito “florido”, o mais difícil de realizar com bom efeito. Entreguei todavia as quatro vozes a três instrumentos só, duas guitarras acústicas e um violão, para obter um amálgama sonoro homogêneo. As guitarras acústicas foram preferidas para as duas vozes superiores por causa do seu timbre mais incisivo e também para evocar o som dos violões no tempo de João Pernambuco, quando esses instrumentos tinham cordas metálicas, de ferro ou de aço, como se ouve nas gravações originais daquela época. Os músicos populares de então andavam todos tesos e as mais requintadas cordas de tripa, além de serem muito frágeis, custavam os olhos da cara. Mesmo o Dilermando Reis, que nos seus anos de glória não tinha decerto problemas econômicos, nunca quis abandonar as cordas metálicas da sua juventude sem um tostão, quando foi acolhido por algum tempo no modesto quarto de João Pernambuco, seu ídolo, que, apesar da sua pobreza, tinha um coração de ouro. 

Não sei se meu trabalho, realizado em apenas poucas horas e quase em estado de transe, como se minha mão fosse guiada por uma presença invisível, é objetivamente bom e sobretudo digno dos grandes músicos que tenciono homenagear. Pessoalmente, por uma vez, me sinto satisfeito com o resultado do meu trabalho, tendo a sensação do que lá em cima o bom João e o bom Dino, agora juntos pela eternidade no reino da paz, ficam ambos contentes com essas Lágrimas surgidas nos olhos de um humilde admirador tão afastado deles no tempo, no espaço e ainda mais no talento artístico. Lágrimas para lamentar o amargo destino de dois puros artistas que tanto deram à humanidade, recebendo, pela maldade dos homens, pouco ou nada em troca [ v. https://www.youtube.com/watch?v=iCzVUeizW4c ]. 

Lágrimas - Tango - Composição de João Pernambuco Arranjo de Angelo Zaniol per Trio di chitarre